A coragem de ser medíocre
e o que eu aprendi tentando ser minimamente boa em tudo
Não sei dizer o que nos leva a busca incessante da perfeição. Talvez a filosofia já tenha explicado, algum pensador ou intelectual, um estudioso do comportamento humano. Buscamos por coisas que consideramos sem defeitos, o melhor filme para ver, afinal, temos tão pouco tempo para desperdiçar, a música que será o próximo hit da nossa vida, o livro que prende e agrega algo. Buscamos valor, qualidade e excelência.
Porém, a vida com suas tiradas loucas, vem e nos surpreende. A gente fica mais velho e, muitos, amadurecem. Não digo todos até porque amadurecimento pode ter diversos significados, assim também como a perfeição. Já ouvi dizer que é maduro aquele que não se abala, não demonstra sentimentos (risos debochados). Já ouvi dizer, também, que é maduro aquele que paga as próprias contas e também cuida de outra pessoa - de preferência uma criança, afinal, pais são maduros - e ninguém coloca na conta o amadurecimento à força que precisamos enfrentar ao cuidar de avós ou pais, por exemplo. O cuidar é negligenciado, menos se for de um filho.
Considero, eu que vos escrevo, o amadurecimento algo subjetivo, porque realmente ele o é. Frutas e verduras claramente podem ser maduras ou não. Nosso corpo, nossa pele (ó o creme e maquiagem para peles MADURAS). Amadurecemos quando deixamos pra trás nossas crenças mundanas, de infância, crenças criadas a partir de arranjos sociais. É muito importante perceber que tudo que rodeia uma pessoa, desde seu nascimento, pode deixar marcas indeléveis na gente. Ficar constantemente dizendo que a criança é desastrada pode tornar ela insegura e com vergonha de ser dessa forma. Pode, mas não necessariamente deve.
Quando conseguimos ser mais lenientes com a gente, pegar leve mesmo, é um alívio, mas jamais será um sinal de amadurecimento. Afinal, o que é amadurecimento? Essa palavra realmente significa algo para a psique humana?
Durante muito tempo busquei ser aquilo que achava que era meu de direito, por estar em uma posição privilegiada da pirâmide social - obviamente me comparando aos de baixo, mas OLHA O PERIGO, também querendo me comparar com os de cima.
Por mais que saibamos, como pessoas conscientes que somos, que a meritocracia não existe, sempre ouvimos que se nos esforçarmos mais um pouco vamos conseguir: passar de ano, ir bem no concurso, meter um shape, emagrecer ou ganhar massa muscular. Se nos esforçarmos, vamos conseguir ter valor. O esforço está intimamente ligado a virtudes da sociedade atual. Nunca será falado sobre o esforço de se manter saudável se isso significa ser ou continuar gordo. Ninguém vai te parabenizar por você conseguir largar a mão de ser ansioso e acabar esquecendo de pagar uma conta dentro do vencimento. O valor do esforço precisa ser algo dignificante para quem vê de fora. Senão não é esforço, é preguiça ou descaso.
Quando tento me entender entre meus cadernos de anotações (tenho muitos), vejo que me falta constância: de estudos, exercícios, alimentação, rotinas. E aos poucos vejo o quão libertador pode ser a mediocridade.
Percebemos que a mediocridade pode até ser sinônimo de modéstia. Mas também pode ter um uso pejorativo. E é nesse uso pejorativo que nos perdemos de nós mesmos para não sermos medíocres jamais.
Sempre que começava algo, precisava ser excelente. Isso vale pra hobbies, novas rotinas, livros. Preciso ler rápido para postar os lidos do mês (eu sigo gente que posta os lidos DA SEMANA). Preciso acordar cedo, me exercitar, comer bem, pra daí postar que o de hoje tá pago e me justificar se eu comer um chocolate de noite. Preciso pintar bem, desenhar, dançar de forma excelente. E isso vai desgastando, pouco a pouco, nossa vontade de viver. Porque a pessoa que posta os lidos do mês talvez esteja com mato na grama e não tenha tempo de tirar. A pessoa que acorda às 5 da manhã foi dormir às 21h porque não precisa limpar a casa. A pessoa que fala fluente 5 línguas nasceu com uma inteligência privilegiada para línguas e não consegue fazer uma regra de três.
Isso tudo já é de conhecimento popular - a grama do vizinho sempre é mais verde. Mas é inevitável nos compararmos. Já repensei, por exemplo, essa news um milhão de vezes. Não queria que aqui fosse um espaço de divagações porque acabaria sendo repetitivo e ninguém quer saber o que eu tenho pra falar. Mas indo atrás do formato perfeito, me perdi de quem eu realmente sou, alguém que gosta de divagar e repensar os próprios atos e porque fazemos o que fazemos.
Se eu pensar demais, paraliso e não faço nada. E hoje eu queria escrever essa newsletter. E assim foi feito. (Dizem por aí que ninguém mais lê, mas se você chegou até esse final aqui, me manda um abraço virtual que estou precisando).
Gotinhas dos últimos dias
🗡️ Fiquei obcecada pelo Maníaco do Cassino. Episódios curtos e envolventes. Direto ao ponto. Como eu gosto, sem enrolação.
🚬 Amo contos em geral. E Os Perigos de Fumar na Cama é um livro certeiro. Mais uma pérola da Mariana Enríquez, que eu venho gostando cada vez mais.
🧟 Comecei e não terminei (e acho que nem terminarei): Origem tem uma premissa bacana, o primeiro episódio é ÓTIMO mas depois isso é esquecido e fica um monte de gente perdida tentando entender o que acontece só que nada mais acontece. Se você viu tudo e quer me fazer mudar de ideia, o faça.


Amei! Abraço virtual! 🩷